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Por gentileza, seja você o adulto que sua criança precisa

Por gentileza, seja você o adulto que sua criança precisa

há 16 horas
4 min de leitura

Preparar crianças para a vida também é ensiná-las a atravessar os recomeços dos adultos sem perder a segurança de que continuam merecendo amor, respeito e espaço para serem quem são.


Pedi o divórcio. Achei que a coragem para recomeçar viria com a assinatura no papel ou que eu já tivesse suficiente. Com o tempo, a perda da minha própria identidade continuava ali, junto dos medos e das culpas, até mesmo das que não eram minhas. A vida profissional? Para depois.


Ouvindo opiniões sobre mim e passando por situações desconfortáveis, a chave começou a virar. Sempre aparece alguém para insinuar que você está acomodada, que está gostando de “não fazer nada”. Um dia, percebi que quase pedi desculpas por maternar a minha própria filha. Como se esse direito pertencesse mais a quem pagava as contas dela do que a mim, justamente a pessoa que abria mão de tanta coisa para estar presente.


É preciso firmeza. Há quem ache exagero pedir que a criança não pule no sofá, mas também critique quando você não permite doces ou a ensina a reparar um erro, como limpar a parede que rabiscou.


Não fazer sempre o que os outros esperam é para os fortes. Seguir o ensinamento “Ceder para conquistar é uma regra de ouro” pode facilitar a convivência, mas nem mesmo quem o aconselha exige que alguém abra mão de tudo o tempo inteiro.


Que mensagem minha filha receberia se eu continuasse sem me permitir um banho demorado ou um café sozinha na padaria? Ela realmente seria mais feliz se eu deixasse de ter vida própria para que a dela acontecesse? Ou aprenderia que é natural se colocar sempre em último lugar?


Proteger nossos filhos de todas as dores pode nos impedir de ensiná-los a atravessar as mudanças da vida. Histórias mudam, famílias se transformam, adultos trabalham e precisam de tempo para si; crianças crescem e vão à escola. A vida continua, e um amor maduro não exige que ninguém desapareça para que outra pessoa floresça.


A parentalidade não consiste em evitar toda frustração, mas em ajudar a criança a atravessá-la com apoio, autonomia e confiança. Precisamos acolher nossos sentimentos sem nos colocar como heróis nem transformar o outro lado em vilão. Gratidão não se cobra por cada gesto ou sacrifício.


Ser adulto é agir com coerência e responsabilidade, seja como mãe, pai, padrasto, madrasta, avó ou qualquer pessoa que participe da criação. Não se trata de defender um lado: mães e pais podem falhar; padrastos e madrastas também. Precisamos abandonar a necessidade de santificar ou demonizar alguém para viver nossas vidas. Sobretudo, não podemos usar a criança como mensageira ou prova de quem tem razão.


Nossos filhos, enteados, netos, sobrinhos e afilhados não vieram ao mundo para realizar sonhos, preencher ausências ou reparar decepções. São pessoas inteiras, com preferências e caminhos próprios. Cabe a nós estabelecer limites e permitir que descubram quem são.


Em um recomeço, a criança não deve ser obrigada a aplaudir cada decisão dos adultos, nem a escolher quem pode amar. Precisa ter segurança para compreender que os adultos podem reconstruir a vida profissional e afetiva sem que isso signifique que ela perdeu seu lugar.


Eu preciso ser forte para que ela se sinta segura em ser o melhor que pode ser.


Mudanças podem provocar medo, tristeza ou resistência. Cabe acolher essas emoções e mostrar, com atitudes consistentes, que a criança continua tendo lugar e voz. Uma criança emocionalmente fortalecida não é aquela que nunca sofre, mas aquela que pode expressar o que sente sem temer perder o amor dos adultos.


É injusto cobrar dos pequenos maturidade para aceitar recomeços sem respeitarmos nossos limites. Precisamos cuidar de nós sem transferir à criança a responsabilidade pelo nosso bem-estar.


É lógico, cada cuidador terá seu jeito de amar e educar. Com respeito e atenção às necessidades da criança, não é preciso que todos ocupem o mesmo lugar: cada relação saudável pode encontrar o seu próprio espaço.


Nossos filhos precisam de mães e pais convictos de seus direitos ao recomeço. Ser gentil não é ser submisso; perdoar não significa aceitar tudo; persistir diante de uma dificuldade não exige permanecer onde há desrespeito. Se não queremos que nossas crianças abandonem a si mesmas, precisamos mostrar que ninguém deve se anular na própria vida.


Há muitas realidades. Mas, fato é que nunca podemos prometer uma vida sem perdas. Podemos é oferecer segurança para que não confundam mudanças com abandono. Que possam admirar os recomeços dos adultos sem se sentirem obrigados a aprová-los, amar pessoas diferentes sem acreditar que estão traindo alguém e construir os próprios caminhos sem culpa.


Criar filhos é prepará-los para que não precisem viver em função de ninguém. Por isso, talvez, nem mesmo a nossa vida deva ser só a parentalidade.


Se queremos que nossas crianças não abandonem a si mesmas, precisamos mostrar que é possível amar sem se anular e recomeçar, quantas vezes forem necessárias, em qualquer âmbito da vida.


Nenhuma criança deveria carregar a felicidade dos adultos para ter a certeza de que é amada. Precisa mesmo é saber que tem espaço cativo e incondicional na vida deles. Assim se tem liberdade para descobrir o próprio lugar no mundo.

 
 
 

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