Mãe e madrasta: precisamos mesmo ser rivais?
Uma lembrança da minha infância e a minha experiência como mãe me fizeram enxergar quantas camadas existem nessa relação e como a rivalidade não precisa ser o ponto de partida.
Cresci vendo minha mãe ser madrasta dos meus irmãos mais velhos. Eles moravam com a mãe deles, em outra cidade, e não faziam parte da nossa rotina, estavam conosco sempre nas férias. Quando meu irmão passou para a faculdade, aos 18 anos, veio morar com a gente no Rio. Minha mãe não hesitou em recebê-lo, afinal era filho do marido dela e meu irmão.
Uma coisa sempre me chamou a atenção: a mãe do meu irmão nunca quis ter contato com a minha mãe, mesmo com o filho morando em outra cidade e passando a viver conosco.
Na época, eu achava aquilo estranho. Estávamos na década de 90 e quase não se falava sobre essas relações. Muito menos sobre o que se passava na cabeça e no coração de cada uma dessas mulheres.
Hoje, quando lembro daquela história, percebo quantas camadas existem nessa relação. Nem sempre conhecemos os motivos, os sentimentos e as experiências que estão por trás de uma distância ou de uma dificuldade de aproximação.
Anos depois, me vi do outro lado dessa história: como mãe de uma filha que tem madrasta.
Quando me separei do pai da minha filha, tive muitas inseguranças sobre como seria a nossa vida dali em diante. Tinha medo de passar menos tempo com ela e de que, em algum momento, ela pudesse sentir que o pai a amava mais. Esses sentimentos vieram com a separação, antes mesmo de existir uma madrasta na história.
Com o tempo, fui entendendo que a nossa relação não dependia apenas de quantas horas passávamos juntas. Eu precisava estar presente de verdade nos momentos em que estivéssemos juntas, cuidar do nosso vínculo e confiar na história que estávamos construindo. Não tinha como controlar tudo o que acontecia quando ela estava longe de mim. E tudo bem.
Quando uma nova mulher entrou na vida do pai da Bia, eu quis conhecê-la. Queria saber quem era aquela pessoa que poderia fazer parte da rotina da minha filha. Eu confiava no pai dela e entendia que, se ele estava construindo uma relação séria, aquela mulher poderia ter um papel importante na família que se formava.
Foi assim que começamos a nos conhecer. Descobrimos afinidades e construímos uma relação de carinho, respeito e admiração. Não somos amigas no sentido tradicional da palavra, mas temos uma relação boa, de cuidado e preocupação genuína com a nossa menina.
Sou grata por isso, especialmente quando penso nos momentos em que minha filha esteve longe de mim, como quando morou fora do Brasil com o pai e a madrasta. Saber que ela tinha ali uma mulher de referência também me trouxe tranquilidade.
Sei que tive uma experiência positiva, mas também sei que nem toda família consegue construir uma relação assim. Existem separações difíceis, mágoas que não passaram, conflitos e situações que tornam qualquer aproximação muito mais complicada. Não dá para ignorar tudo isso, muito menos dizer que basta querer para que as coisas funcionem.
Mas tem algo em que acredito: podemos evitar transformar essa mulher em rival. Ainda pior se a gente faz isso sem conhecê-la.
Isso não quer dizer que mãe e madrasta precisem ser amigas, ter intimidade ou concordar sobre tudo. Também não significa abrir mão de limites, ignorar preocupações ou deixar de participar das decisões que cabem à mãe e ao pai. Cada família tem sua dinâmica, e o respeito precisa existir dos dois lados.
O que me parece importante é entender que, quando uma madrasta participa da rotina, do cuidado e da educação de uma criança, as duas estão construindo uma relação única. E essa relação não depende da mãe. Ela envolve a madrasta, o pai e a própria criança. A mãe pode contribuir para que esse vínculo seja construído sem obstáculos desnecessários, mas não é responsável por ele.
Não cabe à mãe autorizar esse vínculo. O que ela pode fazer é evitar colocar obstáculos desnecessários e ajudar a criança a entender que existe outra pessoa que também pode gostar dela, cuidar dela e ser importante na sua vida.
Fico pensando se não estamos colocando energia demais na relação entre mãe e madrasta e de menos no que realmente importa: como essa criança está vivendo tudo isso.
Se essa presença faz bem ao nosso filho/a, por que não buscar uma forma de caminhar juntas? Não precisamos pensar igual, ter intimidade ou concordar em tudo. Mas podemos tentar mostrar à criança que os adultos ao redor dela são capazes de agir em parceria, respeitando os limites e o lugar de cada um.
As famílias se formam de maneiras diferentes. E os filhos não deveriam precisar viver essas diferenças como uma disputa entre as pessoas que amam.
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