Nem ausente, nem presente: qual é o lugar da madrasta? O que um grupo de WhatsApp me ensinou.
Uma mensagem bem-humorada no grupo da escola virou incômodo. O problema foi o que eu disse ou quem disse? Uma reflexão sobre o lugar da madrasta nos lares reconstituídos.
Eu sou madrasta. Escrevo isso sem pedir licença e sem pedir desculpas, porque demorei a entender que essa palavra, tão carregada de preconceitos, também me descreve com amor. Minhas enteadas vivem metade da semana conosco, isso significa que eu acordo cedo para arrumar mochila, confiro tema de casa, ajudo a separar os uniformes, escuto as histórias do recreio e, sim, faço parte dos grupos de WhatsApp das turmas.
Há pouco tempo, numa dessas trocas de casa, uma sacola de uniformes ficou esquecida na escola. Coisa de criança. Mandei uma mensagem no grupo perguntando se alguém tinha visto e recebi resposta confirmando que sim. Agradeci com um comentário bem-humorado sobre os esquecimentos diários, com emoji rindo e tudo. Era o tipo de frase que eu já tinha ouvido muitos pais e mães escreverem sobre os próprios filhos, nada demais.
Dias depois, chegou até mim, por outros caminhos, o recado de que a mensagem não tinha caído bem. E, junto com ele, o palpite de que talvez eu não devesse me manifestar nos grupos das turmas.
Confesso que fiquei um tempo em silêncio. Não por culpa, mas porque aquilo mexeu em perguntas que eu carrego há muito tempo e que nunca tinha colocado no papel.
A primeira pergunta foi inevitável: se a mesma frase tivesse sido escrita por um pai ou por uma mãe, alguém teria parado para olhar duas vezes? Acho difícil. A frase não mudou. O que mudou foi quem a escreveu.
E isso me levou a outra, mais incômoda: o problema foi a mensagem ou foi a minha presença ali? Posso ler os avisos, saber da reunião com a professora, das provas e dos passeios, mas não posso falar, é isso? Fiquei com a sensação de que a madrasta é tolerada enquanto observa em silêncio e se torna incômoda quando ocupa o espaço de quem também cuida.
Pode cuidar, mas não pode educar? Na minha rotina, ser madrasta inclui preparar refeições, ajudar nos temas, cortar as unhas, acolher choros, colocar para dormir contando histórias e inclusive dividir com o pai o sustento da casa. Tudo isso é aceito, esperado até. Mas, quando eu falo, opino ou oriento, parece surgir uma linha invisível dizendo: esse lugar não é seu.
Eu não quero o lugar de ninguém. Nunca quis ser mãe de quem já tem mãe. Aprendi que educar não é exclusividade de quem gerou. Educa quem convive, quem dá exemplo, quem está presente no dia a dia. Uma criança que passa metade da semana em uma casa aprende com todos os adultos daquela casa, quer a sociedade reconheça isso ou não.
Qual é, afinal, o jeito certo de ser madrasta? Se nos afastamos, somos frias, desinteressadas, as que não gostam das crianças. Se nos envolvemos, somos intrometidas e queremos ocupar um lugar que não é nosso. Já testei os dois lados na cabeça e cheguei à conclusão de que não existe o modelo ideal, porque o julgamento não depende do que fazemos. Ele chega antes de nós, junto com o rótulo.
Esse rótulo vem de longe, dos contos em que a madrasta é sempre a vilã. A ficção ficou para trás, mas a desconfiança permanece e encontra espaço em lugares tão comuns quanto um grupo de pais da escola.
Não escrevo este texto para apontar culpados. Sei que famílias que se reorganizam carregam dores, inseguranças e sentimentos que nem sempre têm nome. Escrevo porque acredito que dá para construir outra coisa: os adultos ao redor de uma criança não precisam ser amigos, mas podem ser aliados.
Os lares reconstituídos já são parte da vida de muita gente. Neles, há padrastos, madrastas, meios-irmãos, avós de várias origens e muito afeto circulando. Insistir em encaixar essas famílias num molde antigo não protege ninguém, muito menos as crianças.
Então, a sociedade odeia madrastas? Talvez odiar seja forte demais. Mas ela ainda não aprendeu a nos enxergar. E, enquanto não aprende, eu sigo aqui: presente, cuidando e aprendendo a não pedir desculpas por existir.

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