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Virou moda chamar pai e mãe presentes de "genitor"?

Eu não sei exatamente quando isso começou, mas de uns tempos pra cá virou quase um hábito chamar pai e mãe presentes de “genitor” e “genitora”. E não estou falando do uso técnico, jurídico, que faz sentido em determinados contextos. Estou falando daquele uso carregado de intenção, quase como quem quer reduzir alguém ao mínimo possível.


Existe uma diferença enorme entre quem apenas gera e quem cria. Entre quem participa só biologicamente e quem sustenta emocionalmente. Pai e mãe presentes não são apenas responsáveis por um ato biológico. São responsáveis por rotina, por limite, por formação de caráter, por segurança afetiva. São aqueles que aguentam o cansaço, as fases difíceis, as conversas desconfortáveis, as noites mal dormidas e, principalmente, a constância.


Eu vivo numa família reconstituída. Eu sei exatamente o que é biologia e o que é vínculo construído. Sei que DNA não garante presença e que presença não depende exclusivamente de DNA. Mas quando há pai e mãe que exercem seu papel de forma ativa, comprometida e responsável, reduzi-los a “genitor” parece uma tentativa de esvaziar o que é concreto.


É curioso observar que, ao mesmo tempo em que a sociedade avança no reconhecimento de múltiplas configurações familiares, valorizando madrastas, padrastos, avós, redes de apoio, também cresce um movimento de diminuir quem ocupa o papel parental de forma efetiva. Como se chamar de pai ou mãe fosse um exagero, e não o reconhecimento de uma função exercida todos os dias.


Não estou romantizando parentalidade. Existem pais ausentes. Existem mães ausentes. E nesses casos, o termo técnico pode até ser adequado, na minha opinião. Mas quando há presença real, responsabilidade afetiva e compromisso, reduzir tudo isso a uma palavra fria parece mais um gesto de desqualificação do que de precisão.


Palavras importam. Elas moldam percepção. Elas revelam intenção. Elas tem um peso ENORME na vida das crianças. Que talvez a gente, muitas vezes, esqueça.


E, num mundo em que tantas pessoas carregam marcas de abandono, talvez a gente devesse ter mais cuidado ao tratar com desdém quem escolhe ficar. Porque, sim, gerar é biológico, sem dúvidas. Mas educar, sustentar, orientar e permanecer não é. E quem cumpre o seu papel, merece, no mínimo, respeito.

 
 
 

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