No Dia da Mulher, uma pergunta incômoda: como você trata a madrasta da sua filha? E como você trata a mãe da sua enteada?
- Julia Kacurin
- 23 de fev.
- 2 min de leitura
O Dia da Mulher está chegando, e eu pensei nisso. Que exemplo estamos dando para as nossas meninas?
O Dia da Mulher sempre traz falas e movimentos grandes sobre força feminina, união entre mulheres, independência e respeito. Falamos sobre criar meninas seguras, que não se diminuem, que se apoiam, que exaltam outras mulheres, e que não aceitam rivalidade como regra.
Mas existe um lugar onde esse discurso é realmente testado. Esse lugar é dentro de casa. Especialmente na forma como tratamos uma outra mulher que também ocupa um papel importante na vida da criança que amamos.
As crianças não precisam entender os detalhes mínimos da história para perceber tensão. Elas captam o tom, o olhar, o comentário atravessado, a ironia disfarçada. A revirada de olho, a oposição, a desqualificação. Não se engane. Você não está disfarçando tão bem… Elas sentem quando existe disputa. E, a partir disso, constroem referências sobre como mulheres se relacionam entre si.
Dói pensar nisso, né? Eu espero que sim.
Existe uma fantasia silenciosa na madrastidade e na maternidade de que, se a madrasta fizer bem, a mãe perde espaço. Ou de que, para ser validada, a madrasta precisa diminuir a mãe. Nenhuma das duas coisas é verdadeira. O lugar de mãe não é frágil a ponto de ser ameaçado por cuidado. E o lugar de madrasta não se fortalece através da comparação. Nunca foi sobre isso. Precisamos entender com urgência.
A tal da sororidade não pode ser seletiva, minhas amigas… É fácil falar de união feminina quando a outra mulher não interfere na nossa história. Difícil é sustentar respeito quando ela ocupa um lugar importante. Difícil é expandir nossos limites, é fazer terapia, é crescer. Difícil é melhorar, é ter consciência. Mas empoderamento que só funciona quando não dói não é empoderamento, é conveniência. Se defendemos que nossas filhas cresçam em um mundo onde mulheres se apoiam, precisamos começar pela mulher que está mais perto da nossa realidade, mesmo que isso nos desafie.
O que nossas meninas estão aprendendo sobre o amor? Elas estão aprendendo que amor é território? Que amor só é válido se sair da barriga delas? Que cuidado é competição? Que mulheres precisam se vigiar?
Ou estão aprendendo que é possível ocupar lugares diferentes com maturidade, limites claros e respeito? Um dia pode ser ela do outro lado dessa história. Pode ser ela tentando amar alguém que já tem filhos ou convivendo com a nova mulher do pai dos seus filhos. O que você gostaria que ensinassem para ela na prática?
Você não precisa ser amiga de ninguém. Não precisa romantizar relações difíceis. Não precisa ignorar dores e feridas causadas. Mas precisa reconhecer que postura também educa. Nossas meninas não aprendem com o discurso do dia 8 de março. Elas aprendem observando como reagimos quando nos sentimos ameaçadas, contrariadas ou inseguras.
Nunca esqueçam que o exemplo mais poderoso que podemos dar não é sobre o que falamos de empoderamento, mas sobre como tratamos outra mulher quando seria mais fácil competir do que amadurecer.
Desde já, e por todos os dias: Feliz Dia da Mulher!
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